Quando eu conheci o João ele era apenas mais um zé ninguém das ruas. Estava sempre vestido com a mesma roupa esculhambada. Um jeans roto e rasgado e uma camiseta velha do Ramones preta que combinava com seu cabelo negro longo despenteado. Eu o invejava na realidade porque ele tinha aquele negocio que perdemos quando passamos da infância para a adolescência, aquela alegria descompromissada com a vida e a ingenuidade transformadora. A gente costumava beber até cair sentado em um barranco com vista para o lago. Era uma visão desoladora a do lago, mas era o único lugar em que eu podia beber sem ser pego em fragrante pelos meus pais que eram muito tiranos.
Normalmente ficávamos calados de inicio admirando a podridão do lago poluído. Eu me perguntava porque ele parecia sempre tranquilo, nada o aborrecia e isso me deixava bolado. Eu sempre fui meio cabeça quente ainda bem que conhecia o João, ele era minha ancora. Sempre que havia uma confusão - normalmente eu sempre as começava - ele estava lá para resolver tudo com aquele sorriso de orelha a orelha e o jeitão maroto que acabava esfriando tudo e no final todos acabavam juntos bêbados em alguma sarjeta.
Um dia enquanto bebíamos e fumávamos no barranco costumeiro, observando uma caravela que passava desatenta ao longe ele virou-se para mim e encarou-me seriamente. Nesse momento um calafrio percorreu minha espinha, João serio? O que poderia ser afinal. Então calmamente e com aquele jeitão despreocupado ele me falou;
- Sabe cara acho que tá na hora de sairmos desse lixo entende? Afinal pensa comigo, o que tem aqui para nós? Somos largados cara essa é a verdade e se não sairmos daqui podemos acabar nos acostumando com essa cretinice toda entende?
Não respondi de imediato porque aquilo me pegou de surpresa. É claro que ele tinha razão mais o que poderíamos fazer, para onde poderíamos ir? Eramos apenas dois jovens ambiciosos e sonhadores contra um mundo cruel e covarde e eu sabia mesmo que ele tinha razão. Se acostumar a viver em uma sociedade cretina e desigual era como morrer em vida, sem uma vontade própria seriamos todos apenas formigas trabalhando para um destino comum que era encher a pança flácida de um burocrata qualquer. Porém, eu estava trabalhando na época. Era uma merda de um trabalho mais deixar um salario mesmo que misero por uma aventura sem qualquer garantia era o mesmo que dar um mergulho com olhos vendados e esperar que o poço não seja assim tão fundo. Meio desanimado respondi simplesmente um “para onde?”
- Acho que deveríamos ir para Alto Paraíso...
Não fiquei nem um pouco surpreso com a resposta e apenas suspirei. Desde que o conheço ele tinha esse sonho estupido. Alto Paraíso a terra das oportunidades, uma natureza exuberante, misticismo em todo o canto, drogas e mulheres. A parte boa disso tudo é que poderíamos viver de guias turísticos, eles tinham essa especie de curso lá e era grátis. O problema mesmo era chegar lá. Não tínhamos carro e pouco dinheiro, teríamos que ir a pé, ou seja, enfrentar um calor infernal durante o dia e a noite um frio insuportável. Eu não estava nem um pouco animado com isso.
- Cara não sei não, isso é loucura entende? Além do mais eu tenho meu emprego mesmo bosta mais tenho e meus pais, cara meus pais iam pirar tá sacando velho?
Ele não respondeu, pelo menos não com as palavras e sim de uma forma que me deixou meio sem jeito. A habitual alegria quase infantil tinha dado lugar a uma melancolia profunda e uma decisão irrevogável. Naquele momento eu sabia que tinha perdido o meu melhor amigo e quem sabe se um dia o encontraria novamente? Decidi então aproveitar a noite e o chamei para um boteco que costumava frequentar e lá encontramos uns amigos. Depois de algumas horas de conversas loucas sobre bandas e artistas subversivos famosos, percebi que ele tinha perdido o ar triste e sorria como de costume e até cheguei a esquecer a sua tola decisão. Meu maior erro.
Durante a semana seguinte andei muito ocupado no trabalho. O velho Rachid não me dava folga, era carregue isso pague aquelas contas eu queria mesmo era matá-lo. Eu não tinha mais noticias de joão e por isso fiquei preocupado, não por ele ter ido embora e tal mas por deixar ele ir sozinho. Isso me deixou muito bolado mesmo. E assim fiquei sem noticias durante um bom tempo até que um dia em que tudo parecia ter virado de ponta a cabeça ouvi a noticia na TV, um indigente tinha sido atropelado por um ônibus enquanto andava embriagado numa via de alta velocidade a pé. Somente ele seria tão louco para morrer assim.
Eu fui no enterro, ele era muito querido e mobilizou metade dos vagabundos da cidade. Muita gente veio no seu enterro inclusive sua mãe sumida a tempos, foi o que me contaram porque eu não fui. Eu não fui porque para mim João com aquele jeito alegre e amigo, despreocupado e pensativo nunca morreu e nunca morrerá, ele sempre viverá no coração de todos os vagabundos que como eu tiram de letra as injustiças de um sistema corrupto e desprezivel.

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