sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Emily


Quando Emily cruzou a porta da sala, encontrou o velho e habitual cenário de sempre. Paredes imundas tomadas pelo limo, onde coisas nojentas rastejavam. O piso era de uma madeira velha e corroída pelo tempo. No centro da sala, sob um tapete velho e corroído jaziam dois sofás e uma televisão vagabunda jogada no chão. Um dos assentos era o local de repouso de um corpo putrefato do que algum dia já foi uma bela mulher. No outro sofá, um homem num estado lamentável agonizava enquanto balbuciava coisas indecifráveis.

            A jovem depositou aos pés do moribundo uma bandeja que trazia com as suas pequenas mãozinhas. O homem ao sentir a aproximação da criança acordou de imediato com um suspiro;

- Emily... Por favor...

            Emily apenas sorriu e começou a repartir com uma faca de cozinha enferrujada, alguns pedaços de pão de forma meio mofados. Ao terminar, serviu o conteúdo da velha jarra num copo imundo.

            - Papai você tem que comer enquanto está quente. – dizia em tom inocente enquanto empurrava os pedaços de pão dentro da boca do homem, que lutava e cuspia desesperadamente os restos mofados e vermes que saiam de dentro do pão.

            - Pai Mal! – gritou a garotinha em resposta com o semblante frio e maldoso.

            Ela em plena fúria, atirou todo o conteúdo da jarra sobre o homem, que quase desmaiou novamente ao constatar que aquilo era sangue.

            - Emily... Por que ta fazendo isso com o papai e a mamãe?

            A garota parou por um instante e olhou para os restos destruídos pela ação dos vermes que era sua mãe. A mandíbula do cadáver se abre subitamente, deixando escapar um caldo nefasto de vísceras e parasitas. Um suspiro pareceu sair de lá.

            - A mamãe disse que é divertido papai...

            Lagrimas desciam do homem cativo enquanto observava, aterrorizado, sua filha retirar uma faca manchada de sangue de dentro de uma das dobras do seu vestido de boneca. Ela apenas sorria divertida...

            E aquela foi a primeira vez que Emily ouviu as vozes macabras... Ela tinha apenas oito anos. 

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